quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

A CAMINHO DE EMAÚS: O MODELO DE UM MINISTÉRIO PASTORAL CONFIÁVEL


Pesquisa revela credibilidade de profissões e instituições.
Recentemente foi publicado o resultado de um levantamento de opinião pública realizado com exclusividade pelo Instituto Paraná Pesquisas para a Gazeta do Povo, de Curitiba (PR). Com o objetivo de revelar quais categorias profissionais e instituições os cidadãos curitibanos consideram mais ou menos confiáveis, a pesquisa abrangeu desde os cartolas do futebol até os bombeiros, e desde os partidos políticos até os Correios.
Entre os profissionais considerados mais confiáveis pela população estão os bombeiros, os professores e os enfermeiros. Não surpreendentemente, os mais desacreditados são os políticos: deputados federais, estaduais e senadores. Entre as instituições que desfrutam de mais credibilidade estão o Corpo de Bombeiros, os Correios, as emissoras de rádio e as Forças Armadas. As mais desacreditadas são os partidos políticos, o Congresso Nacional, os clubes de futebol e as empresas aéreas.
Pastores e igrejas evangélicas apareceram no resultado da pesquisa e, lamentavelmente, não alcançaram boa colocação. Há carteiros que caminham cerca de trinta quilômetros por dia carregando uma pesada bolsa de correspondências, e os bombeiros freqüentemente arriscam suas vidas no combate a incêndios e acidentes, mas os pastores terão de trabalhar muito mais e melhor para resgatarem sua credibilidade perante a opinião pública.
A pesquisa revela que 38% dos curitibanos confiam nos pastores, mas 49% não confiam, uma diferença de 11 pontos. Como se percebe, a desconfiança é maior do que a confiança! Já as igrejas evangélicas dividem ao meio os residentes da capital: 43% acreditam nelas e 43% não acreditam. Não são preocupantes esses números pelo que eles representam? O que levou os ministros e as igrejas evangélicas a serem tão depreciados?

Bom testemunho: A coerência entre prática e discurso.
Uma das razões porque o cristianismo tem perdido sua credibilidade e sua autoridade perante a sociedade no curso do tempo é o mau testemunho de seus líderes. Por isso o apóstolo Paulo escreveu: “É necessário que ele [o oficial da igreja] tenha bom testemunho dos de fora” (1 Timóteo 3:17). O exegeta neo-testamentário John Kelly comentou: “Como líder e representante do seu rebanho, o superintendente deve ter bom testemunho dos de fora, i.é, entre os não-cristãos, judeus e pagãos, na localidade (...) isto se aplica especialmente aos clérigos, por cujo caráter e conduta o mundo tende a julgar a igreja”.
É a falta de combinação entre a fé e a vida, entre o que se prega e o que se faz, entre o discurso e a prática, que tem desmoralizado os pastores e a igreja evangélica perante a sociedade brasileira. Como escreveu o Rev. Elben César, editor da Revista Ultimato: “O discurso de um jeito e a prática de outro é contradição, é hipocrisia, é escândalo”.
Infelizmente, muitas pessoas se lembram dos recentes acontecimentos lastimáveis envolvendo pastores e igrejas evangélicas, que certamente contribuíram para que o grau de confiança neles caísse tanto. Um exemplo é o site “Eu odeio pastores evangélicos”, no qual o autor comenta: “Eu desafio você que está lendo este texto, a passear por todos os canais de sua televisão agora, e duvido que você não seja obrigado a assistir a um programa evangélico apresentado por algum pastor com claras intenções de tomar o dinheiro dos fiéis”.
Não se faz necessário mencionar nomes, mas é impossível evitar a lembrança de situações constrangedoras que certamente acirram os ânimos e suscitam as mais severas críticas. Bastaria pensar nas declarações estapafúrdias de alguns evangelistas em cadeia nacional, nas denúncias de falsidade ideológica, sonegação de impostos e estelionato envolvendo pastores publicadas pelos jornais; bastaria pensar também na exagerada ênfase dada à arrecadação de dízimos e ofertas sob as promessas de prosperidade material e cura física, ainda que o mais visível seja o enriquecimento rápido dos próprios pregadores.

Jesus Cristo é o Pastor Confiável.
No evangelho Jesus se apresenta: “Eu sou o bom pastor” (João 10:11). Em seu comentário ao evangelho do IV domingo de Páscoa, o Padre Carlo Battistone, FFCIM, da Região Episcopal Sé – Arquidiocese de São Paulo, explica: “Obviamente bom não indica uma qualidade moral, não é sinônimo de bondoso, o sentido é antes mais próximo à palavra autêntico, confiável, disposto a tudo”.
O Novo Testamento narra o encontro de Jesus com dois discípulos logo após sua ressurreição, e é possível identificar nesse evento algumas pistas que apontam para o exercício do ministério confiável. Qualquer pessoa que se aproxima de um pastor pode observar a confiabilidade de seu ministério a partir destes aspectos. O texto bíblico é Lucas 24:13-35.
“Nesse mesmo dia, iam dois deles para uma aldeia chamada Emaús, que distava de Jerusalém sessenta estádios; e iam comentando entre si tudo aquilo que havia sucedido. Enquanto assim comentavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou, e ia com eles; mas os olhos deles estavam como que fechados, de sorte que não o reconheceram. Então ele lhes perguntou: Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre vós? Eles então pararam tristes. E um deles, chamado Cleopas, respondeu-lhe: És tu o único peregrino em Jerusalém que não soube das coisas que nela têm sucedido nestes dias? Ao que ele lhes perguntou: Quais? Disseram-lhe: As que dizem respeito a Jesus, o nazareno, que foi profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo, e como os principais sacerdotes e as nossas autoridades e entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de remir Israel; e, além de tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram. Verdade é, também, que algumas mulheres do nosso meio nos encheram de espanto; pois foram de madrugada ao sepulcro e, não achando o corpo dele voltaram, declarando que tinham tido uma visão de anjos que diziam estar ele vivo. Além disso, alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; a ele, porém, não o viram. Então ele lhes disse: ó néscios, e tardos de coração para crerdes tudo o que os profetas disseram! Porventura não importa que o Cristo padecesse essas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras. Quando se aproximaram da aldeia para onde iam, ele fez como quem ia para mais longe. Eles, porém, o constrangeram, dizendo: Fica conosco; porque é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles. Estando com eles à mesa, tomou o pão e o abençoou; e, partindo-o, lho dava. Abriram-se-lhes então os olhos, e o reconheceram; nisto ele desapareceu de diante deles. E disseram um para o outro: Porventura não se nos abrasava o coração, quando pelo caminho nos falava, e quando nos abria as Escrituras? E na mesma hora levantaram-se e voltaram para Jerusalém, e encontraram reunidos os onze e os que estavam com eles, os quais diziam: Realmente o Senhor ressurgiu, e apareceu a Simão. Então os dois contaram o que acontecera no caminho, e como se lhes fizera conhecer no partir do pão”.
O primeiro aspecto de um pastorado confiável é a presença. Há pastores ocupados demais para acompanhar suas ovelhas nas diversas circunstâncias de suas vidas. Estão mais interessados em aparecer na televisão, pois isso os fará conhecidos publicamente. Os últimos acontecimentos haviam sido dramáticos, os discípulos viviam momentos difíceis e sua fé nas palavras de Jesus era provada. Mas o Senhor não os abandonou, aproximou-se e começou a caminhar ao seu lado, mesmo que eles não o identificassem (vv 13-16).
O segundo aspecto é a compreensão. Atualmente, a preocupação excessiva de alguns pastores no crescimento numérico de suas igrejas e a sua aceitação pelo público mediante seu bom desempenho tem os tornado insensíveis às reais necessidades de seu rebanho. Jesus havia dedicado o precioso tempo de sua vida em ensinar a fé aos seus discípulos, e talvez esperasse que naquele momento crítico eles a praticassem. Mas, percebendo suas dificuldades, perguntou a respeito e os ouviu, compreendendo suas limitações (vv. 17-24).
Terceiro, o ensino. Há pastores que estabelecem seus ministérios sobre eles mesmos – os personalistas. Os sermões que pregam e o aconselhamento que prestam têm pouco ou quase nada de doutrina bíblica. Suas opiniões não são baseadas na Bíblia, mas em suas próprias impressões. Jesus, entretanto, não falou de si mesmo, mas remeteu os discípulos às Escrituras (vv 25-27). Como escreveu João Calvino: “Cuidemos que nossas palavras e pensamentos não voem além do que a Palavra de Deus nos diz (...) e prossigamos tal como ele se nos der a conhecer, sem tratar de descobrir algo sobre sua natureza fora da sua Palavra”.
O quarto aspecto é a identificação. Muitos pastores escondem do rebanho fraquezas e temores, projetando a falsa imagem de um líder inabalável, para não perder seu poder. Como diria o médico e psicoterapeuta cristão Paul Tournier, estes pastores deixam de ser pessoas e se tornam personagens, se afastando dos demais, como se não compartilhassem de sua natureza humana. Não foi isso o que Jesus fez: Aceitou o convite dos discípulos e entrou na casa, pois viajar à noite seria muito perigoso. Esta cena é uma metáfora a nos lembrar de que todos nós temos nossas limitações (vv 28-31).
O quinto e último aspecto é a ausência positiva, aquela que conduz o discípulo à iniciativa própria. Muitos pastores não querem que os membros de suas igrejas conheçam plenamente a Bíblia e atinjam o amadurecimento espiritual, pois temem perder a influência sobre eles. A maneira como Jesus pastoreou aqueles tristes e desanimados discípulos os fez recobrar seu ânimo e tomar por si mesmos a importante decisão de retornar ao convívio dos demais irmãos, o que também é muito salutar (vv 32-35).

Oração em favor dos bons pastores.
Muitos bons pastores, autênticos, confiáveis, dispostos a tudo bem do rebanho, sofrem as conseqüências da falta de escrúpulos dos maus pastores. Que o Senhor conceda aos pastores sabedoria para conduzir com honra o ministério que lhes foi confiado. E conceda aos membros das igrejas o discernimento necessário para discernir os pastores confiáveis dos que não são. Temos um bom exemplo na pessoa do apóstolo Paulo... Ele – um missionário, um evangelista, um pregador, um líder, um mestre e um pastor de almas –, rogou aos seus contemporâneos: “Irmãos, orai por nós” (1 Tessalonicenses 5:25). Se este grande homem de Deus pedia que se orasse por ele, todos os cristãos devem orar pelos bons pastores!

4 comentários:

Claudanir disse...

Caro Rev. Oslei
Excelente o teu artigo. As tuas colocações e argumentações são precisas e não carecem de nenhum reparo. O Pastor deve ter cultura específica e geral, capacidade intelectual e honestidade de propósito. Os aproveitadores da fé dos humildades - e são muitos - denigrem a imagem de todos. Por outro lado, os modernos meios de comunicação e de persuasão dificultam identificar os verdadeiros Pastores dos simples pa$tore$.
Parabéns e obrigado pelo artigo esclarecedor.
Claudanir Reggiani

wagner disse...

Grande Rev, Oslei... A cada artigo lido fico surpreso com tamanha sabedoria espiritual...Muito bom o texto..bem detalhado, sem ser cansativo de ler..direto, sem ter ofensas e palavras nao aceitaveis...E o melhor, bem edificante, baseado somente naquilo q esta na velha e boa "biblia", podendo-nos assim agregarmos conhecimento a mais pra nossa vida espiritual...

Congratulations!!!!

God bless you...

Wagner NY

Rev. Hélio O. Silva disse...

Olá Oslei.
Acabo de ler o seu artigo e o achei muito bom.
seria possível eu ter uma cópia da tal pesquisa para o meu arquivo pessoal?
Hélio O. Silva - Goiânia-GO.

Cassandra disse...

Companheiro 0slei parabens pelo seu conhecimento e pelo enunciado desta materia que muito nos eslareceu. Um grande abraco. Juarez Cornehl