quarta-feira, 30 de junho de 2010

UM POUCO MAIS SOBRE PASTORES E OVELHAS

Há algum tempo atrás publiquei no blog “Palavra boa para edificação” um artigo sobre como é bom saber que todos nós somos ovelhas de Jesus. Mesmo os chamados “pastores” – homens e mulheres vocacionados e direcionados por Deus para zelar por seu rebanho neste mundo –, também são ovelhas de Jesus e carecem de seus cuidados.

Também há algum tempo, o compositor e cantor Elizeu Gomes escreveu uma música pitoresca que, de modo cômico, nos faz refletir sobre as responsabilidades e fraquezas pastorais:

Se eu prego muito é que gosto de falar
E se não prego nada eu não posso apascentar
Se eu brinco pouco é que sou esquisitão
E se brinco muito sou um baita crianção
Se eu não visito é que não gosto de andar
Se ainda visito, só quero almoçar
Se fico em casa eu não quero ir à igreja
E se prego no Domingo eu só quero aparecer
Se falo em dízimo é que só penso em dinheiro
Se eu não falo em dinheiro já ganhei para viver

Na Bíblia Sagrada, Deus é indicado como o “único Pastor” (Eclesiastes 12:11). Jesus apresenta-se como o bom pastor (João 10:14), é descrito como o grande Pastor (Hebreus 13:20) e o Supremo Pastor (1 Pedro 5:4). Os profetas de Israel são comparados a pastores (Jeremias 17:16) e Cristo ordena a Pedro: “Pastoreia as minhas ovelhas” (João 21:16). Conforme comentário da Bíblia de Estudo de Genebra, ao escrever a outros presbíteros, Pedro os incita a pastorear o rebanho de Deus, revelando ter levado a sério as palavras de Jesus.

Assim como irmãos mais velhos geralmente cuidam dos mais novos sob as ordens de seus pais, creio que pastores são chamados pelo dono do redil para cuidar das ovelhas. Mas também são, e sempre serão, ovelhas! Certamente por isso, algum dia, algum pastor de igreja falhou com alguém. Talvez não tenha feito aquela visita que prometera ou não tenha cumprimentado o crente na rua; talvez tenha esquecido um nome ou não tenha dispensado a atenção esperada. Talvez tenha faltado com a ética ou a boa educação. O pastor é um ser humano! Ele tem obrigações, mas tem também limitações.

O apóstolo Paulo recomenda que nutramos apreço, amor e consideração pelos que nos presidem e admoestam, “por causa do trabalho que realizam” (1 Tessalonicenses 5:12). E como pastor, pede: “Orai por nós” (1 Tessalonicenses 5:25). O pastor ama o rebanho e preocupa-se com cada ovelha. Todo pastor precisa ser humilde diante do rebanho e sempre se lembrar de que também é ovelha. Antes de criticar qualquer pastor humano, devemos ouvi-lo, compreende-lo, orar com ele e por ele. Atitude assim se reverterá em bênçãos para toda a igreja do Senhor.




terça-feira, 29 de junho de 2010

DEIXE A PALAVRA DE DEUS FALAR POR SI!

Pense um pouco nos métodos que usamos em nossas congregações. Por exemplo: que truques usamos para levantar fundos? Será que eles não acabam agindo para o mal em lugar de contribuir para o bem? Os pastores presentes na conferência na Regent College riram quando contei de algumas igrejas que usavam um programa de estímulo à boa mordomia baseado em "pôneis expressoas": pessoas montando pôneis iam até à residência dos membros da congregação, levando bolsas na sela para recolher as doações. E isso é verdade. Existem programas assim.

Por que, em vez de fazer esse tipo de coisa, não nos limitamos a falar sobre o imenso amor que Deus tem por nós, sobre o convite que Ele nos fêz para doarmos com generosidade, de todo coração, e sobre a missão da comunidade, para a qual precisamos de recursos? Talvez sua igreja não tenha recorrido a truques para conseguir a mordomia das pessoas, mas se formos totalmente honestos teremos que admitir que já usamos, em outras situações, métodos que talvez sejam questionáveis.

Uma das áreas que mais atrai minha atenção, e com a qual me preocupo muito, é a dos métodos adotados nos cultos de adoração, pois muitas igrejas de nossos dias dependem de estratégias de marketing para atrair as pessoas. Geralmente é fácil reconhecer os pastores que confiam em demasia na "Técnica" pelo modo como lêem as Escrituras. Quando não cremos que a Palavra carrega em si mesma seu próprio poder, começamos a manipulá-la pelo modo como a lemos. A adoração se degenera quando nos transformamos em apresentadores de programas de entrevistas - como se Deus não fosse convincente por Ele mesmo quando o mostramos claramente aos outros.

O tipo de conversa-fiada que me perturba é composta de comentários introdutórios, como: "Agora preste muita atenção a este texto, pois ele é muito emocionante", "Esta música é tão empolgante! Preste atenção à letra", "Eu amo esta canção, ela me comove TANTO - espero que toque em você também".

Comentários assim afastam-nos de Deus, levando nossa atenção para a pessoa que está falando. Deixe que o texto fale por isso só. Permita que Deus fale através do texto. Evidencie uma imagem que talvez não seja bem compreendida em uma música ou explique a referência bíblica. Mas dizer, meramente, a influência subjetiva que tem sobre você significa afastar o foco de Deus, firmando-o em você mesmo.
Marva J. Dawn
O Pastor Desnecessário

quarta-feira, 16 de junho de 2010

TODO PASTOR DEVERIA LER ISTO!

Timóteo [o filho na fé do apóstolo Paulo] assumiu uma congregação problemática, com a incumbência de consertar o que estava errado nela. Recebeu como herança tanto o legado de Paulo quanto os problemas causados por outros (entre os quais estavam Himeneu e Alexandre). A vocação pastoral não começa com uma folha em branco semelhante ao tohu wabohu [sem forma e vazia] de Gênesis 1:2.

Uma congregação problemática representa um grande perigo no sentido de nos convencer de que somos [os pastores] necessários. Outros fizeram a confusão, agiram mal, foram responsáveis e nós somos chamados para consertar tudo. O simples fato de sermos chamados deve significar que somos competentes e capazes, pelo menos se comparados à incompetência dos outros.

É claro que ficamos lisonjeados. Alguém reparou em nós. E nos dizem: “Precisamos de você! Tire-nos dessa situação. Lemos o seu currículo, conversamos com pessoas que deram boas referências sobre você, ouvimos seus sermões – resgate-nos”!

E com essas palavras – precisamos de você... resgaste-nos... – tornamo-nos pastores necessários. O fim disso é ficarmos presos à agenda estabelecida para nós, escravizados às condições nas quais penetramos. As dimensões de nosso mundo mudam. Deixam a grande e enorme salvação de Deus e entram nas condições limitadas das necessidades alheias que, em face da combinação de pecado e incompetência, não foram atendidas.

Há, em tudo isso, um aspecto neurótico. É como alguém que, pego em uma enchente, agarra-se a um galho para salvar sua vida tão preciosa. Passam-se vários dias antes que a água baixe completamente. Durante esse período, a pessoa está agarrada ao galho – salva, resgatada, viva. Por fim, a enchente acaba e a pobre alma continua agarrada ao galho. Muito passam por ela e dizem: “Vamos, solte isso”! Mas ela responde: “De jeito nenhum. Estou salva. Foi nesse galho que encontrei minha salvação. Foi ele que me salvou. Não vou deixar este lugar seguro”.

Houve uma tentativa bem-sucedida de salvar a vida, mas no momento certo a pessoa não soube deixar de lado o que já não servia mais. Os pastores fazem isso com muita freqüência. Chegam e encontram muitos problemas, acertam a situação, e depois continuam com as mesmas condições, ano após ano. “Foi assim que eu me salvei e salvei os outros...”

Esse modo de vida aceita as condições do pecado como sendo as condições dentro das quais iremos [os pastores] trabalhar. É claro que sempre trabalhamos na presença do pecado, mas ele não define o nosso mundo. O pecado, simplesmente, fornece o material para o nosso mundo, para nosso Evangelho. Os problemas e as necessidades das congregações não impedem nossos movimentos. Não impediram os de Timóteo.


Rev. Eugene H. Peterson
em “O Pastor Desnecessário”

sábado, 12 de junho de 2010

OS SOFRIMENTOS DE CRISTO E A VÍRGULA DO CREDO

Reduzimos muito o valor da redenção. Diminuímos o tamanho do símbolo profundo da salvação e o relegamos ao futuro distante. A literatura hebraica é muito mais tangível. Uma das palavras que significa salvação (yeshuwah, relacionada ao nome Jesus) deriva de uma raiz que acentua a amplidão e a abertura. A libertação de Deus dá-nos muito espaço – espaço para respirar, libertação das angústias que nos apertam e das limitações que nos confinam. De mais a mais, Deus faz isso por nós continuamente, não apenas promete fazer em um futuro distante. Será que reconhecemos Seu esforço bondoso quando nos resgata e nos liberta das várias escravidões de nossa vida?
Essa libertação acontece através do sangue, que é outro símbolo profundo que poderíamos explorar durante muito tempo. Certamente, o sangue de Cristo é um símbolo que representa todo Seu sacrifício em nosso favor, não apenas Sua rendição final na morte na cruz, mas os sacrifícios que fez durante toda Sua vida na Terra. Tendo colocado uma vírgula em lugar errado no Credo Apostólico, acabamos reduzindo as dores que Cristo sofreu por nós em apenas uma (embora seja a maior delas). Dizemos:

Nasceu da virgem Maria,
padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos
foi crucificado, morto e sepultado.

Mas deveríamos dizer:

Nasceu das virgem Maria,
padeceu,
sob o poder de Pôncio Pilatos foi crucificado,
morto e sepultado.

Reparou a enorme diferença que a troca da vírgula fez? Jesus não sofreu apenas sob o poder de Pôncio Pilatos. Sofreu desde o início, até mesmo no útero de Sua mãe, quando pesava sobre Sua vida a ameaça da marginalização e da pobreza, se José levasse adiante a idéia de “deixá-la secretamente”. Jesus sofreu logo ao nascer e ser colocado em uma manjedoura. Em um contraste tremendo com nossas cenas de Natal caseiras, onde tudo é romantizado e representado como “arrumadinho”, o estábulo, sem dúvida, era mal-cheiroso, mal-acabado e cheio de estrume. Em resumo: era um lugar deplorável. Ele sofreu com as multidões empurrando, os romanos oprimindo, os discípulos insuportáveis e sua incapacidade fenomenal de fazer o que era certo. E Ele sofre com você! Por esse motivo, lembremos, quando afirmamos que somos libertos através do sangue, de que Deus está sempre sofrendo para libertar-nos.

Revª. Marva Dawn
Pastora luterana canadense
Co-autora de “O Pastor Desnecessário”